terça-feira, 1 de dezembro de 2009

O fio

Tinha cabelos negros e escorridos. Negros como os olhos, enormes e profundos, do tipo que arrastam o olhar perdido e despreparado para as profundezas da tentação não-carnal. Seus lábios eram finos, pálidos, em contraste com suas olheiras roxas e marcadas profundamente. Seus braços e suas pernas eram tão longos quanto finos. Nenhum músculo, praticamente ausência total de tecido adiposo. Não possuía seios. Era que como tábua, porém com salientes divisórias, como que rugas sólidas, feitas pelas costelas. A barriga era côncava. O umbigo era comprido. Era branca como o óxido de titânio. O nariz era comprido e fino, belo porém triste, pontiagudo. Tinha os quadris tão largos quanto o tórax. O pescoço comprido, cheio de cicatrizes. Dedos longos e finos, unhas roídas pintadas de roxo. Era um ser frágil, delicado.

A lâmina era pequena, retangular, com uma cavidade simétrica, com um desenho típico dessas lâminas. Era de cor metálica, com vários arranhões e algumas manchas de ferrugem, devido à umidade constante do armário do banheiro onde costumava ficar. Apesar de enferrujada, era deveras afiada.

A lâmina encontrou os cabelos da moça. Tornou-os curtos, quebrados e esvoaçados. Então encontrou suas sobrancelhas, suas axilas, sua púbis. Não deixou nada como lembrança de sua queratina com melanina naturalmente negra como o breu.

Então a lâmina e a moça se beijaram. Untado com sangue, o beijo perigoso se fez. Então a lâmina quis causar arrepios à moça, como que por retribuição à atenção e falta de preconceito com sua natureza fatal. Beijou profundamente a jugular, então caiu da mão desfalecida da moça.

O último beijo, no pescoço. E então, fabricou-se o nada.

Um comentário:

  1. Perfeito.
    *-*
    Creepy, e só pra ser hype: "visceral".
    Literalmente.

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