terça-feira, 13 de outubro de 2009

Algemas

Corro contra os relógios. Escondo-me entre os minutos. As faces podem cair. As camadas podem descascar. Se a moldura e o vidro forem mudados, e a pintura for restaurado, ainda será o quadro o mesmo desde o início?

Fujo dos ponteiros, mergulho em um mar de décimos de segundo. Poderia muito bem viver por aqui. Montar bases no fundo deste mar e erguer acima delas uma ilha artificial. Montar uma casa, um sistema inteiro e ficar aqui até minha pele se tornar pó e minhas memórias tornarem-se nada. Grãos de milésimos de segundo acima das rochas. Animais atemporais. Uma casa em lugar nenhum, nunca construída nem sequer derrubada. Não há projeto. O mais próximo de um plano é a mera vontade de estabelecimento. Paredes de dias. Azulejos de milênios.

Bom, anos-luz vêm e anos-luz vão, e nunca há a abolição.

Somos todos meros escravos do tempo.

Um comentário:

  1. Porque o tempo não corre, não importa o que haja?
    É muita elegância.

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