sábado, 23 de janeiro de 2010

Ponta de prisma

Um dia estava a menina perdida na beira de uma rodovia movimentada. Como havia gastado o tempo das aulas de Estudos Sociais desenhando vestidinhos e dando risadinhas por entre as mãos com as amigas, não sabia nem onde era o norte ou o sul. Não sabia ler a posição do Sol nem das constelações-base. Perdida. Por dias. Pedia por copos d'água, por algum pão. Um dia desistiu completamente de se encontrar novamente e atravessou a rodovia, a passos largos e corridos. Ao chegar no outro lado encontrou um vendedor ambulante de sorvetes aguados e baratos (em ambos os sentidos de "barato"). O homem vestia sobretudo de couro e óculos escuros reflexivos sem abas de apoio nas orelhas. O vendedor olhou para a menina e removeu dois picolés de dentro de seu carrinho e disse a menina "escolha entre o azul e o vermelho. Um deles te leva de volta à beira da rodovia e o outro te mostra teu verdadeiro lar. Escolha um.". E a menina pegou a carteira do vendedor e fugiu. Fugiu. Comprou drogas, morou debaixo da ponte e morreu de inanição, violentada por um companheiro de subponte.

Seu corpo fora moído junto com o de vários outros em uma parte de terra removida dos arredores da vala pública. Virou assentamento. Virou aterro. Virou apoio. E nele se construiu uma casa.

Certa vez o menino da casa achou um maxilar inferior inteiro (ou quase, visto que lhe faltavam alguns dentes e outros possuiam buracos de cáries) e mostrou para seu pai. Seu pai disse "oh, que legal meu filho.", e voltou a ler seu jornal de domingo.

Na mesma noite um trio de marginais mascarados invadiu a casa, matou pai, mãe e filho, violentou os corpos e limpou a casa de todos seus bens comercializáveis.

Um dos assaltantes tinha família, casa e um carro velho na garagem. Ao voltar para casa encontrou seu filho brincando com um boneco quebrado (sem um braço e com a cabeça inconsertavelmente virada para trás). Então pegou-lhe no colo e disse para ele "o queijo é meu. Se todos tiverem um queijo, de que valerá o meu?".

E assim o menino cresceu, arrumou um emprego de baixo salário e pouca dignidade, guardou algum dinheiro para sua troca de sexo e implantes de silicone, arranjou seu ponto em uma avenida de capital e morreu ao ser esfaqueado por um maníaco aleatório de rua.

A poça de sangue tinha o formato de uma pétala de girassol.

4 comentários:

  1. haushaushaushuahsahaushausha
    que vida filha da puta ein?
    tu tem o dom, Greg, quero um autografo quando escrever seu livro. *-*

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  2. É.

    O sentido existe, mas é uma moça burra e feia.
    Adorei a menina, he!

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  3. Meus livros têm cheiro de chá..

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  4. Eu escolheria o vermelho...

    sahushaushashaushahsauhs

    Gosto muitoo de ler oq tu escreve guri ^^

    SaudadedetiGreg.

    Bj

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